Olhe, eu amo seu filho...

julho 13, 2015





Me lembro de quando conheci o seu pai como se fosse hoje. Eu estava muito ansiosa, sem saber o que esperar e o que dizer, afinal, era o pai do homem que eu amo. Estou sendo boba em juntar esperanças de que algum dia ele será meu sogro, mas confesso que entrei em parafusos quando só uma parede me separava daquele homem que era parte do seu mundo. Uma parte da qual eu gostaria de fazer parte.

Entramos na pequena sala do hospital, me deixei ficar para trás, lhe dando um tempo para digerir todos os rostos estranhos que se lhe apresentavam naqueles minutos seguintes. Lavei as mãos, e acanhadamente, dirigi-me para a cadeira em que ele se encontrava sentado. Nada poderia me preparar para o que vi. À minha frente encontrava-se um homem na casa dos 70 anos, mas com a aparência de 60, que ria de forma acolhedora para os visitantes. Daqueles sorrisos que te cativam logo de cara...aqueles sorrisos como os seus.

Procurei apresentar-me àquele senhor de olhos verdes e feição paterna. Ele apertou minha mão com prazer e lançou-me um daqueles sorrisos doces que me fez acreditar que ganharia o lugar que está vago, ao teu lado.

Enquanto "os adultos conversavam", recusei-me a sentar e sair do seu lado, apreciando cada minuto que me concediam com o seu rosto figurando na minha visão periférica. Meus pés já começavam a protestar, sob a sapatilha leve que usava, mas ignorei todo o desconforto, não sairia dali.

Infelizmente aquele momento não poderia ser eterno, tínhamos outras ocupações para o mesmo dia. Portanto, foi com grande pesar que me despedi de todos que ali se encontravam, inclusive de você. Algo me fez sorrir quando ouvi, sorrir de verdade, como se tivesse ganho mais um zero no cheque de salário no final do mês. Ao apertar minha mão em um gesto de despedida, seu pai me desejou felicidades. Sei que é clichê quando se encontra ou conhece alguém; mesmo assim, meu coração encheu-se de alegria. Queria muito que aquela expressão dele tivesse algum significado, além de um simples desejo. Queria que ele visse em mim uma possível nora, a pessoa que ficaria ao teu lado quando ele não estivesse mais nesse mundo. Mas isso seria desejar demais, certo? Minha imaginação sempre foi fértil demais para esse mundo realista.

Naquele momento, minha vontade era sentar-me no sofá ao seu lado e prometer que cuidaria do seu filho como se fosse minha própria vida, o que não deixava de ser verdade. Queria fixar na minha mente o rosto dele, sabendo que o seu ficaria daquele jeito, quando estivermos na melhor idade; perguntar coisas sobre você, como era enquanto criança, e lhe apresentar o homem completo e abençoado por Deus em que você se tornou. Graças à sua mãe, graças à sua avó. Mas ninguém é perfeito, todos acabamos por fazer algo na vida da qual não nos orgulhamos.

Mas a minha maior vontade naquele momento, era contar-lhe um pequeno segredo, quando todos já tivessem saído da sala. O segredo de um sonho que ainda me custa deixar para trás, lhe pediria confidencialidade, mas que eu te amava e ainda amo. Que não precisaria se preocupar com mais nada; seu nome estava no livro da vida, seus filhos estavam criados...e daquele eu cuidaria. Ele me fitaria com aqueles olhos claros, sorrindo de forma cúmplice. Você apareceria na porta chamando meu nome, ele colocaria o dedo sobre os lábios em sinal de silêncio e me despediria com um gesto amável. E era assim que eu ganharia mais um torcedor nessa corrida desvairada que era ganhar seu coração.

Quem dera que fosse verdade, que eu tivesse a certeza de que você é o tal. Não hesitaria em contar-lhe. Em vez disso, mantive um sorriso estático em meus lábios e acenei positivamente. Fiquei tão extasiada que minha mente nem teve capacidade de formular algo depois daquela declaração. Olhei fixo em seus olhos e esperei que ele lesse nos meus o tanto que gostaria de lhe dizer, de te dizer. Dizem que os olhos falam mais que palavras.

Você nos acompanhou até o estacionamento, o que tornou tudo mais difícil. Tentei prolongar aquele momento, mas enfim, tive que te dar as costas. Sem um "vou ter saudades" ou "se cuide". Só uma mudança de direção e um aperto no coração. A segunda sugestão, apenas eu senti.

Não pude evitar, fiquei magicando em meu lugar no carro o que seu pai diria sobre nós, sobre mim. Será que pelos seus olhos verdes passariam aquele ar travesso que tanto vejo nos seus, e perguntar o que você achava da moça? Colocaria todos os microfones, câmeras e dispositivos para gravar aquele momento. Um estetoscópio seria bastante útil, enviar uma enfermeira que fingiria ter se enganado no paciente e verificar os seus batimentos cardíacos quando meu nome fosse pronunciado.

Sinto-me outra pessoa quando começo a divagar sobre o que sinto por você. Sinto que devo estar louca por pensar que você sentiria alguma coisa por mim. Mas são essas loucuras que mantém meu mundo girando.

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